As Oportunidades em um Mundo Pós Covid-19
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Normalmente os artigos que escrevo estão relacionados a segurança cibernética. Inclusive, essa era a intenção inicial deste artigo: fazer uma associação entre a pandemia Covid-19 e cibersegurança, considerando que a atenção das pessoas está totalmente voltada para a pandemia e suas consequências.
Porém, antes disso, muitas perguntas sem respostas foram lançadas, e dificilmente seremos capazes de responder todas agora. Por quanto tempo irá durar a quarentena? Quais os efeitos dela em longo prazo na vida das pessoas e das empresas? O que irá mudar no mundo e em nós como sociedade? Quais previsões irão se cumprir? Neste momento, é impossível dizer quais, mas uma coisa é certa: muitos paradigmas serão abandonados e novas formas de pensar surgirão. Assim, o objetivo deste artigo é dar minha contribuição em relação aos efeitos da pandemia sobre o mundo, a economia e a sociedade.
...a pandemia de Covid-19 será um marco na passagem entre os séculos 20 e 21, da mesma forma que a Primeira Guerra Mundial marcou a transição entre os anos 1800 e 1900.
Concordo que a pandemia de Covid-19 será um marco na passagem entre os séculos 20 e 21, da mesma forma que a Primeira Guerra Mundial marcou a transição entre os anos 1800 e 1900. Neste caso, enxergo o momento atual também como uma guerra, mas sem bombardeios e destruição material. O inimigo desta vez é comum a todos: um vírus microscópico, que infecta e mata as pessoas através do contato físico. Assim, segundo a Organização Mundial da Saúde, a melhor maneira de evitar o contágio é através do distanciamento (ou em alguns casos, isolamento) social. Com certeza não iremos "voltar à vida normal", como alguns podem achar. Os próximos meses (quiçá anos) serão tempos difíceis, porém interessantes: teremos neste período uma grande oportunidade de nos reinventar como humanidade e como sociedade.
Não encaremos todo esse período apenas como apenas um tempo de distanciamento social e do aumento do home office e do delivery. As mudanças são bem mais profundas que possamos imaginar. A transformação digital, que já havia sido iniciada, sem dúvida será acelerada. Novos modelos de negócio e postos de trabalho irão surgir, enquanto outros desaparecerão. Nesse contexto, as empresas e pessoas que não conseguirem se adequar à nova realidade com certeza serão deixadas de fora.
Em relação ao tamanho e papel do Estado, esse momento também pode ser um divisor de águas, considerando que temos visto pelas últimas crises mundiais é a conta sendo sempre bancada pelos governos.
Na crise de 2008, por exemplo, estima-se que os bancos centrais gastaram mais de USD 2,5 trilhões para adquirir dívidas de governos e ativos dos bancos, além de garantir suas dívidas através de compra de ações preferenciais, injetando mais de USD 1,5 trilhões nessas instituições. Já durante a atual pandemia, o governo federal americano sozinho já lançou um pacote de ajuda no valor de USD 2,2 trilhões, enquanto que a União Europeia anunciou que irá investir mais de 500 bilhões de Euros para minimizar os efeitos causados pelo Corona vírus.
O Yuval Harari, autor de best-sellers como "Sapiens: Uma breve história da humanidade" e "Homo Deus: Uma Breve História do Amanhã", em um brilhante artigo escrito para o Financial Times traz também à luz o aspecto do monitoramento das pessoas e eventual punição em caso de desobediência de suas diretrizes. Hoje os governos são capazes de utilizar sensores e algoritmos poderosos para acompanhar dados de saúde e hábitos de qualquer cidadão, ao invés de utilizarem agentes espiões. O Yuval apresenta o exemplo da China: através do monitoramento dos telefones celulares de seus habitantes, a utilização de milhões de câmeras de reconhecimento facial e da imposição de controle de temperatura e condições médicas, o governo de Pequim pode não apenas identificar portadores suspeitos do vírus como também acompanhar seus movimentos e identificar qualquer pessoa que tenham tido contato com o infectado.
Essa crise tem nos mostrados as precariedades dos modelos de trabalho modernos, como a terceirização e o trabalho por aplicativo. Assim, os debates de garantia de suporte financeiro às pessoas através de uma renda mínima universal podem ser reacendidos através da pandemia de Covid-19. As audiências judiciais remotas, antes algo distante, também creio que serão regulamentadas e difundidas. A educação remota também sairá ainda mais consolidada. Eu mesmo, que antes não era adepto desta modalidade, fui forçado a aprender remotamente. Com certeza a medicina será um campo que irá avançar muito em pouco tempo. Protocolos de pesquisa e desenvolvimento de produtos serão excepcionalmente revistos com o objetivo de acelerar os testes e lançamentos de medicamentos e procedimentos. Iremos avançar décadas em poucos anos.
...em um mundo dominado pela produção intelectual, creio que os modelos baseados em tempo de trabalho deverão ser substituídos por aqueles que medem resultados.
Ainda sobre o tema trabalho, a pandemia também traz um convite para mudarmos as relações de emprego. Neste aspecto, sem dúvidas as equipes remotas chegaram para ficar. O Gartner, por exemplo, estimou em uma pesquisa realizada no período pré-Corona que, nos próximos 10 anos, o trabalho remoto irá crescer 30% com a chegada da geração Z ao mercado de trabalho. Na prática, após a pandemia, estima-se que esse número seja bem maior. Por outro lado, na mesma pesquisa, o Gartner indicou que apenas 56% dos gestores permitem que seus liderados trabalhem de casa, mesmo que as políticas estabelecidas pela organização permitam o trabalho remoto. Assim, agora é o momento dos gestores humanizarem suas relações com seus times, aprendendo a delegar e confiar mais, e abandonar os modelos industriais do século passado, nos quais um operador trabalha X horas para produzir Y produtos. Desta forma, em um mundo dominado pela produção intelectual, creio que os modelos baseados em tempo de trabalho deverão ser substituídos por aqueles que medem resultados.
É a hora de aprendermos que crescimento exponencial não é economia saudável.
Além disto, as organizações também estão sendo convidadas a repensar o seu papel para o planeta e para a sociedade, o impacto trazido por suas atividades e como alcançar os seus objetivos de negócio de maneira sustentável. Os modelos de gestão com certeza serão repensados para estarem alinhados com novos objetivos de negócio. Pode ser uma guinada no modelo capitalista que conhecemos, de consumir por consumir. É a hora de aprendermos que crescimento exponencial não é economia saudável. E seremos forçados constantemente a fazer esse exercício de simplificar tudo: vida, relacionamentos, trabalho, enfim. Será que finalmente iremos aprender a amar as pessoas e usar as coisas, e não o contrário?
Por fim, esse período de pandemia também trará uma oportunidade de trazer um novo significado a coisas como o que é essencial às nossas vidas e o que é supérfluo, além do propósito e a forma através das quais nos relacionamos com as pessoas e até com o meio ambiente. O fato de não podermos ter aglomerações pode ser uma oportunidade de estimular o fortalecimento de laços com a família e pessoas mais próximas. Sabe aquele jargão de ter “poucos mas bons amigos”, ou que "menos é sempre mais"?
Olha quantas oportunidades tudo isso vai trazer junto consigo! Vamos viver pra ver?

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